Várias coisas sobre Melancholia de Lars Von Trier

20 ago

                      O filme de Lars Von Trier é uma bela metáfora de nossa passagem pelo planeta terra. Primeiro ele optou por começar o filme do fim. O planeta Melancholia se aproxima da Terra e a música de Wagner, que não a toa é da tragédia Tristão e Isolda, deixa as primeiras imagens ainda mais bonitas e sinceras. Já sabemos o que vai acontecer, assim como também sabemos que vamos morrer um dia.

       Mostrar a colisão dos dois planetas nos primeiros minutos do filme em nada muda nossa curiosidade sobre o enredo, na minha opinião esse é o efeito de uma boa obra de arte cinematográfica. Não interessa a história, mas sim a forma como ela é contada. Assim como não interessa saber que nossa vida tem um fim, o que importa é a maneira como vamos viver, ou deixar de vivê-la.

            Justine, por exemplo, tentou viver… a vida de outras pessoas. Sua festa de casamento é uma ótima caricatura de nossa sociedade. Todas aquelas regras e formalidades a cumprir. De fato precisamos estabelecer uma ordem para que as coisas funcionem, mesmo que, em algum momento, tenhamos vontade de fazer diferente. A sociedade precisa das leis para sufocar os instintos mais animalescos do ser humano e a formalidade mascara os desafetos, promovendo a “harmonia” do grupo.

              Os rituais configuram uma forma bem arcaica de construção e justificativas de aparências para a comunidade. A irmã de Justine queria eternizar a imagem da família feliz com aquela grandiosa festa de casamento. O que aos poucos vai ruindo. Nada, nem ninguém naquela família sustentaria por muito tempo essa mentiria.

          A mãe parece uma expectadora distante e, na minha opinião, é a única que vê toda aquela situação com mais clareza. Dela sai a voz de toda a realidade, a denuncia da farsa. Ela se torna o símbolo do mal estar porque revela as fraquezas das pessoas e a fragilidade das instituições. O casamento, a família e os laços de afeto que a Claire se esforça para manter firme por fora, está desmoronado por dentro.

           Não a culpo por seu desespero em ver a irmã feliz. Na verdade ela não se da conta de que não suporta enxergar a tristeza de Justine. Não porque ela se preocupa com o estado de espírito da irmã, mas porque essa melancolia lhe diz a todo momento que existe algo errado, de que nada é tão perfeito como ela gostaria que fosse e isso é simplesmente insuportável para ela. Até mais do que para a própria Justine.

         A personagem de Claire é a encarnação das demandas sociais. O tempo todo exigindo que sejamos bonitos, felizes e fortes. Capazes de sermos brilhantes no trabalho, de conseguir alguém para amar e formar uma família modelo, o sujeito contemporâneo tem que ser um vencedor. Não a toa presenciamos o grande “boom” dos psicotrópicos, consumimos aos bolos as pílulas mágicas da felicidade porque sem perceber somo incapazes de lidar com o sofrimento.

              Na verdade, não existe espaço na nossa sociedade para que ele exista. As demandas de hoje são rápidas, não existe espaço para o devaneio, para lidar com as agruras de nossa subjetividade, isso é perda de tempo. Vamos Justine! Por favor não apronte nada dessa vez, as pessoas estão esperando, você precisa cortar o bolo, precisa sorrir, pagamos caro por isso, você não pode ficar triste, você não tem tempo para essas tolices, você consegue, não seja egoísta!
Ufa! Isso te faz lembrar alguma coisa?

        Já a personagem de Justine incorpora os sintomas de nosso mal estar atual. A manifestação crítica a esse ideal imposto por nossa civilização. As amarrações em suas pernas é a ilustração inconsciente de sua negação, o cansaço de seu corpo é a sua recusa. Ela não pode se mover, ela não deseja se mover.

        A personagem de Kirsten Dunst não se encaixa, nem deseja se encaixar. Ao se ver forçada e pressionada a encarnar o ideal ela adoece, a única saída foi ser atingida em sua própria melancolia por não ter consciência de que não precisa ser aquela pessoa que os outros desejam que ela seja.
Talvez porque ela não tinha conhecimento de seus próprios desejos, aquilo que nos move na vida. Ela não sentia prazer no trabalho ou no amor, nem teve tempo de descobrir o que lhe impulsionaria para viver. Se fosse em outra época Justine poderia ter sido uma poetiza, nos tempos em que se romantizava a melancolia dizendo ser o “espírito de todo nobre artista”.

        Mas hoje, time is money! Cria-se a necessidade pela busca constante em aplacar sensações “inconvenientes”. Como se fosse possível evitar algo que é inerente ao ser humano. Estou falando aqui do estar triste ou ficar triste. Não de estado constante e patológico da tristeza. Falo de uma banalização dos sentimentos.

           Entristecer, amolecer diante de situações e sofrer, faz parte de nossa natureza. Isso me faz lembrar das pessoas que, de fato, refletiram sobre o assunto. O pessimismo de Schopenhauer, para quem, a vida consistia em conviver com o sofrimento. Lembro também do otimismo de Nietzsche, quando estamos nos momentos mais angustiados e vivemos nossas tristezas é o momento em que criamos as melhores saídas para nossas dificuldades. Esses momentos proporcionam uma auto-reflexão que nos ajudarão a amadurecer, criamos insights para resolver os nossos problemas e nos tornármos mais cascudos.

         Não vem ao caso dizer que os tempos mudaram e que a tristeza, o sofrimento e as angustias fazem parte de um passado longínquo. Nem estou aqui fazendo um brinde a melancolia. Bem, talvez a Melancholia! O fato é que ambas as emoções constituem nossa mente. Ninguém é só triste ou só feliz. Ser só feliz pode ter tão patológico quanto ser só triste. Encare sua dor, olhe para seu sofrimento. Ele existe. Lide com isso ou você estará deixando de viver parte de sua vida para viver uma mentira.

            Mentira que era vivida pelos três personagens centrais do filme, falo também de John, marido de Claire. Ele era a estrutura da família, o homem do dinheiro, aquele cara seguro em todas as suas convicções e teorias. Toda a sua certeza era o que parecia dar conta dos surtos e medos de sua mulher, o medo do não saber, o medo da morte.

             Assim como Claire é a encarnação das demandas sociais, John é a encarnação do papel que representa a instituição científica para nossa sociedade. Ocupando um lugar inquestionável e com grande poder de influência. As ciências parecem ter as respostas para algumas inquietações humanas, em alguns momentos nos dão seguranças, porém suas verdades são temporais e se modificam de acordo com as necessidades que vão surgindo.

            Em outras horas podem falhar, porque ainda é, ou sempre será, menos capaz que a natureza. John também falhou e no momento em que descobriu que estava errado pulou fora do barco. Aquele cara seguro se mostrou um grande covarde, colocou o rabinho entre as pernas e engoliu o conforto que sua esposa ia usar na hora da morte. E aí Von Trier dá outro tapa de luva na cara da hipocrisia.

          Deixa Claire e Justine completamente sóbrias para encarar o fim do mundo. E longe de ser assustador, o fim do mundo em Melancholia é belo. Ali as personagens podem ser quem elas realmente são. Justine pôde simplesmente ser e esperar sem dor aquilo que ela previa, não digo o choque dos planetas em sí, mas o desaparecimento do vazio que a consumia. Claire pôde chorar, pôde sentir medo. Apesar disso ela se mostrou uma mulher forte e capaz de suportar aquilo que ela jamais imaginou que conseguiria.

        Para ela foi tarde demais, mas para nós ainda existe a oportunidade. Se o homem do século passado adoecia por sentir-se culpado, em uma época repressiva. O homem de hoje é mais livre, menos reprimido, porém adoece por sentir-se envergonhado. Constrangido por não atingir a imagem idealizada, de não ser o melhor, o perfeito, de ser destruído em seu próprio narcisismo. Sem saber que a perfeição não existe, que erros são cometido e que isso é normal, as vezes é preciso errar para descobrirmos quem realmente somos, experimente, você vai ver que não é o fim do mundo.

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2 Respostas to “Várias coisas sobre Melancholia de Lars Von Trier”

  1. Michelle Braga 26 26UTC agosto 26UTC 2011 às 19:29 #

    “Now I’ve got that feeling once again
    I can’t explain, you would not understand
    This is not how I am
    I have become comfortably numb…”

    Roger Waters + David Gilmour: Comfortably Numb

  2. Silvia Maria 17 17UTC setembro 17UTC 2011 às 14:20 #

    Como ja tinhamos conversado, concordo muito com sua visão sobre o filme.

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