A Carranca

2 set

Lembro de uma carranca que tinha em minha casa, inclusive ainda existe se bem que em proporções bem menores. Sua altura deve chegar mais ou menos até o meu busto e, hoje, consigo carrega-la facilmente com meus dois braços. Mas nem sempre foi assim. Na minha infância olhava a carranca de baixo pra cima, ela era toda imponente, cara raivosa, boca aberta e dentes de madeira afiadíssimo como que esperando o momento certo do bote.

Na verdade ela nunca me fez medo, não que eu me lembre. Nas minhas recordações essa carranca proporcionava os cenários de grandes aventuras e expedições enfrentadas por meus personagens infantis. Aquela “bocona” era a gruta do descanso dos audaciosos aventureiros que corajosamente escalavam os primeiros obstáculos e cansados tinham que passar a noite na escura e perigosa boca da montanha em forma carrancuda.

Não me lembro bem, mas no topo devia estar escondido algum tipo de tesouro, coisas como a terra encantada dos sorvetes de morando, um baú com todos os jogos de vídeo-game ou a chave de entrada para Terra do Nunca. Que outro tipo de coisas que as crianças desejam? São os sonhos mais criativos e inocentes que se pode imaginar.
Hoje eles são bem diferentes, a carranca é apenas uma carranca e os sonhos se tornaram desejos a concretizar. Falam que os adultos perdem essa criatividade infantil. Acho que até perdem o infantil, mas não a criatividade. Ela pode ser usada como recurso profissional para aqueles que sabem fazer uso consciente dela e materializa-las em forma de arte. Nós, meros mortais, fazemos uso de nossa criatividade a todo momento e nem nos damos conta disso.

A maneira como percebemos o mundo é uma pintura particular que pincelamos todos os dias, uns com cores mais vibrantes, outros com um bocado de pretos e cinzas. Mas é nosso. Por mais que milhares de coisas sejam concretas, ou quem sabe não, outras são puramente nossa imaginação e fantasia. Se perguntar-mos para várias pessoas o que elas acham da cidade de São Paulo, por exemplo, todas vão dar uma resposta singular. Provavelmente vão reclamar do trânsito ou vão elogiar a diversidade, mas mesmo o “mesmo”, vai ter um olhar diferente.

E quando nos relacionamos com as pessoas? Entre amigos, parentes, conhecidos e amores, construímos idéias sobre como eles são. A medida que os vínculos vão se fortificando vamos desconstruindo aquilo que idealizamos. Esse é inclusive, o grande enigma da paixão e por isso dizemos que a paixão é cega. Nossos olhos ficam vedados por nossas fantasias. Imaginamos a melhor pessoa do mundo, aquela que tem tudo para fazer a gente a pessoa mais feliz. Não conseguimos enxergar quem ela realmente é, nos apaixonamos por um personagem bolado por nossa mente criativa.

O tempo passa e vamos conhecendo essa pessoa como ela é, ou como ela mostra ser. Muitas vezes é na hora em que nossa ilusão é destruída que nos frustramos, ou ficamos com raiva, nos sentindo enganados. Sem perceber que enganamos a nós mesmos . A criatividade do ser humano é maravilhosa e essencial para suas relações com os outros ou com o mundo, mas a medida que o tempo passa temos que abrir mão de que ela seja infantil. Separar a ilusão do que é real, olhar para a carranca como uma carranca e não como uma montanha encantada cheia de promessas e tesouros. No fim das contas, ela vai ser a sua carranca.

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