Papa-Figo para embaixador do Halloween no Brasil

21 out


Não sei o significado da palavra Halloween ou o motivo para o uso das abóboras iluminadas. Mas, dando um google, dá para saber que tem alguma coisa a ver com a cultura de povos celtas, posteriormente incorporada pela igreja católica, levada pelos irlandeses para os Estados Unidos. Daí, os vários símbolos, como as bruxas, doces, travessuras e abóboras, cada um foi, aos poucos, sendo incorporado a essa “comemoração dos dias dos mortos” ou “dia das bruxas” por algum motivo, seja ele cultural ou comercial.

Me peguei pensando, sobre como o Halloween finalmente se estabeleceu como uma data comemorativa no Brasil. Particularmente, minhas associações a esse evento, são a série de filmes de terror americano que leva o mesmo nome ou festas a fantasia. Finalmente o ritual dos doces, as travessuras, que certamente devem ter um sentido histórico e cultural, assim como todos os outros elementos que permanecem obscurecidos pela superficialidade dos eventos e do comércio.

O festejo aos mortos, a brincadeira com o oculto e o misterioso faz parte da nossa curiosidade e constitui muitos de nossos mitos e lendas. Por isso, sinto falta de uma mascara do Papa-Figo nas vitrines de fantasias, ou homem do saco como também era conhecido. No meu imaginário e fantasias infantis, ele era um velho fedorento e corcunda, que andava carregando um saco branco de náilon pesado. Provavelmente porque já estava cheio de criancinhas dentro.

Perdi as contas de quantas vezes exitei ultrapassar os limites dos dois quarteirões, aos quais me eram permitidos brincar, com medo de ser levada pelo Papa-figo. Todo mito ou lenda tem seu fim, nesse caso, os adultos faziam uso estratégico para manter os filhos perto de casa, e funcionava. O medo é um dispositivo para evitar que tenha-mos contato com o perigo e as lendas urbanas de nossa infância, contadas por nossas avós e recontadas por nossas mães era a forma comum de erigir fronteiras para as crianças que brincavam na rua.

O mais genial de tudo era que o “Papa-figo” fazia suas aparições. Claro! Sempre tinha o homem do saco, hoje eu sei que era o mendigo que catava lixo perto de casa. Na época era o coletor de criancinhas, que de longe fazia nosso rosto gelar e salve-se quem puder, era aquela correria. Quem não tem uma história do homem do saco? Quem provavelmente só brincou no play.

Gilberto Freire, em seu livro: Assombrações do Recife Velho, faz um estudo antropológico sobre essas lendas urbanas da cidade, que muitas vezes são do pais, vale a pena dar uma olhada, é interessante e divertido. O Papa-figo está lá. Dizem as más línguas que um homem de família rica ficou adoentado e médico nenhum da região dava conta. O homem suava frio e em noite de lua cheia ficava transtornado.

Médico nenhum dando jeito foram procurar o preto velho curandeiro. Na lata ele disse: Lobisomem! A família, de muitas posses, faria qualquer coisa para curar o patriarca. A receita era comer um fígado de criança por noite, só assim ele voltaria ao normal. Como ele, enfermo, não podia ir atrás dos meninos e meninas e ninguém da família queria se comprometer, contrataram o velho curandeiro para fazer o serviço. Durante alguns meses ele teria vagado pela cidade do Recife com um saco levando uma criança por dia para alimentar o barão com seus fígados.

Hoje não se festeja o Papa-figo, o velho caçador de criancinhas perdeu lugar para a bruxa de vassouras, zumbis, vampiros, múmias e cabeças de abóboras. Eles tem seus méritos no hall das assombrações, mas estão lá longe, que nem o papai Noel. Só entramos em contato com eles nos filmes ou nos livros Já o Papa-Figo, deve estar por aí, vagando com o seu singelo saquinho sem a sofisticação da vassoura voadora, tumba egípcia ou caixão luxuoso para passar a noite, mas é o nosso velho homem do saco.

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