Quem somos depende mais de nossos desejos do que do nosso corpo

21 nov

Essa semana coincidentemente transitei entrei a temática de gênero e identidade. Foram três, minto quatro filmes, acho que posso incluir A Pele que habito de Almodóvar e uma revista. Claro que a discussão em torno de feminino e masculino, o que é ser um homem e o que é ser uma mulher transita pelos calhamaços hipotéticos de teses e mais teses e mesas redondas que se fecham nos corredores da academia já há algum tempo.

Para muitos pensadores, das ciências humanas, a questão da divisão de gênero a partir de uma teoria biológica e cartesiana já há muito foi resolvida. Não dá para definir um homem ou uma mulher a partir daquilo que eles tem entre suas pernas. Muito menos propor que tipo de atitude eles devem ter em relação a vida pelo órgão sexual que carregam. Ser homem ou mulher é muito mais complexo do que se pensava, ainda bem!

Maria Luíza Heilborn, historiadora e antropológa, em um texto de 1992, abre um debate sobre o que é, o que significa gênero. Para ela são visões que dependem do meio social, histórico e cultural que a pessoa vive, ela diz: “pode se multifacetar em prismas variados de análise. Gênero refere-se, de um lado, a uma dimensão crucial da noção de pessoa, aquilo que do ponto de vista de cada cultura o humano possui de qualidades sexuadas. Assim, representa a introdução da diferença em uma instância que lhe é logicamente anterior: a pessoa, tal como concebida em um esquema simbólico particular”.

Ai entra aquela velha discussão mas é a genética ou o ambiente que faz a pessoa constituir uma identidade, na minha opinião provavelmente nem um nem outro, ambos. A complexidade da estruturação de uma personalidade, de sua identidade sexual e seus comportamentos deve ser uma rede extremamente complexa, impossível de ser definida de maneira simples e por via única.

Como vinha dizendo, assisti 4 filmes essa semana que me fizeram pensar a respeito e de épocas completamente diferentes. Glen ou Glenda é um clássico cult dos anos 50, fala dos fetichistas, homens que se vestem de mulher e travestismo. Nessa década ambos classificados como perversões. Pessoas com esses “sintomas” algumas vezes eram internadas em sanatórios. Devia existir os guetos onde elas eram bem aceitas, sempre existiu, mesmo que fosse camuflado.

Não foi pela temática que o filme ficou conhecido como excêntrico, mas sim pela fama posterior do diretor Ed Wood, por montar filmes com baixíssimo orçamento. Onde eu quero chegar é que essas questões e esses comportamentos existem a muito tempo e devem ser tão antigos quanto é o ser humano, antes de Heilborn, muitos outros pensadores questionavam as definições de gênero. Uns menos, outros mais conhecidos como a famosíssima Simone de Beauvoir.

Graças a existência de pessoas que questionam e não aceitam respostas prontas, que se debruçam em pilhas e pilhas de teses que a gente acha que nunca saem de dentro das paredes da academia, muitas das respostas que achava-mos corretas caem por terra e ao poucos, vão se infiltrando no senso comum. Fiquei muito feliz com a última edição da revista Trip, eles tiveram a ousadia e a competência de falar sobre o tema, trazendo diversas visões sobre identidade. No momento onde a luta sobre direitos de amar quem você quiser amar toma conta do espaço político e social, com direito a polêmicas religiosas e de tolerância, a revista mostra que a coisa vai muito mais além da concretude.

Não existe gay ou hétero. Existem gays e héteros, ou seja, existem pessoas com escolhas e desejos que vai muito mais além do tipo de pessoa que ela decide se relacionar. A sociedade em que a gente vive, superficial e imediatista, favorece a rotulação e taxação das pessoas sem que exista um aprofundamento sobre sua personalidade ou valores para que formemos uma opinião sobre ela.

Em A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar, o processo de transformação por que passa um dos personagens nos leva a pensar, e o personagem de Antonio Bandeiras também, que a essência daquela pessoa também teria mudado. Muitas vezes caímos no erro de sermos persuadidos pela imagem. Não vem ao caso discutir o filme, quem sabe num próximo texto, mas aquele personagem não escolheu viver naquele corpo, assim como os transexuais também não.

E isso precisa ser discutido porque acontece muito. Os outros dois filmes são o Tom Boy e Minha Vida em cor de rosa. Ambos contam a historia de uma menina e um menino, respectivamente, que não se sentem confortáveis em desempenhar o papel social definido para seu gênero. Ela gostaria de ser um menino e se comporta como um, é assim que ela se sente bem, o garotinho a mesma coisa. A todo momento se questionam porque não podem ser do jeito que querem ser.

O fato dos personagens serem crianças torna a discussão ainda mais interessante, pois eles levantam questões que para os adultos estão resolvidas, mas nem sabem ao certo porque tem que ser assim. Fico feliz pelo fato das famílias, mesmo tomando sustos e cometendo erros, tentam entender os seus filhos e terminam comprando suas brigas. Vamos torcer para o dia em que pessoas sejam apenas pessoas.

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