Você se reconhece no espelho?

25 nov

“O Mundo Infelizmente é Real. Eu infelizmente sou Borges” (J.L Borges, 1946)

Atire a primeira pedra aquele que não guarda um mistério sobre si mesmo. Alguma coisa que até mesmo sozinhos em frente ao espelho conseguimos dizer olhando nos próprios olhos, já tentou ao menos? Atitudes ou desejos que, algumas vezes, temos vergonha de assumir num espaço entre quatro paredes diante da presença de nossa consciência.

Não precisa necessariamente ser uma coisa ruim, algo obscuro ou condenável pelas leis éticas da sociedade. Pode ser simplesmente um desejo de jogar tudo para o alto e assumir uma vontade de não ser aquilo que esperam que a gente seja. Por mais que se viva minimamente saudável, trabalhando, se relacionando e tentando ser feliz, na medida do possível, algumas pessoas estão sempre se queixando de que falta algo, de um vazio ou um desejo congelado.

Ao negar aquilo que realmente somos e assumir um papel idealizado para nós, sem perceber, acaba-se levando uma vida frustrada. Instigada pela busca de alguma coisa que não consegue nomear, exatamente porque não existe tal coisa. Ao negar a si próprio o indivíduo não se realiza ele apenas procurar agradar a alguém.

Antes mesmo de nascer, já somos um projeto na cabeça de nossos pais. Mesmo aqueles filhos concebidos sem planejamento, um dia foram fantasiados pelas suas mães, nem que fosse nas brincadeirinhas de bonecas. Os pais fazem planos, escolhem um nome, imaginam um futuro maravilhoso. Alguns menos outros muito mais.

É comum que se crie expectativas para os filhos, mas pode ser arriscado traçar um plano de vida para eles baseado na suas concepções. Apesar de ser filho, ele se tornará uma pessoa, com individualidade e desejo próprio. O que muitas vezes acontece, é que no momento em que as individualidades entre pais e filhos afloram, os primeiros tendem a ser frustrar, porque fizeram daquela criança um projeto seu, ao invés de educa-la sem expectativas, constituindo uma base de valores para que essa pessoa possa viver para o mundo.
Esse é o primeiro grande desafio, se diferenciar de nossos pais e nos constituir com personalidade e desejos que não incluem aqueles que eles idealizaram para nós. Isso aparece ainda mais caricato na adolescência, a fase onde fazemos de tudo para desagradar a eles, onde aparecem os primeiros conflitos e as atitudes rebeldes.

Até com os animais existe uma rejeição em torno das diferenças. Me lembrei de um ótimo documentário chamado: Os camelos também choram. O bebê camelo albino é rejeitado pela mãe e sofre para poder mamar em seis seios, porém o final é surpreendente. Por mais difícil e conflituoso que seja se diferenciar do outro, frustrar projetos e idealizações, no fim das contas a tempestade pode ser apenas uma nuvem passageira. Não vou contar o final para não estragar a surpresa, mas o filme, pode valer como uma grande lição, inclusive sobre como a arte tem algo de metafísico que envolve nossas emoções.

Um caminho de escolhas próprias e conscientes pode parecer tortuoso. Principalmente em uma sociedade que não privilegia a individualidade. Depois da família o sujeito se depara com as instituições sociais que valorizam a categorização das pessoas, em fumante ou não fumantes, depressivos ou bipolares, homo ou heterosexuais e assim por diante.

Muitas vezes me espanta ler nas revistas coisas do tipo: como ser bem sucedido na empresa, ou 10 passos para conhecer a pessoa ideal e ainda mil e uma maneiras de ser feliz morando em uma ilha deserta. Como se tudo fosse simples assim e como ser feliz ou ser bem sucedido na empresa fosse a mesma coisa para todas as pessoas.

Vejo muita gente dando as tripas e o coração para atender as infinitas regras de estética, saúde e trabalho. Se sentindo culpadas porque não são bem sucedidas (e algumas vezes são), felizes ou estão sozinhas sem nem se perguntar o que realmente para elas é ser sucedido, é estar feliz e o que é estar com alguém.

De certo modo todo mundo é meio alienado nesse sentido. Seja porque tem vergonha de ser quem realmente é, ou porque nem sabe que pode ser ele mesmo, uns tentam mas falta coragem e outros insistem porque são teimosos mesmo. Para os que se aventuram, aquele caminho tortuoso pode ser parte da imaginação. Assim como viver uma fantasia pode parecer melhor que viver a realidade, ela pode, como disse Borges, infelizmente não ser ideal porque não é fantasia e você pode infelizmente ser você. Mas ao menos você não será um projeto e nem nada inalcansável, apenas você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: