Mãe cujos filhos são peixes

14 dez

O título se refere a etimologia da palavra Iemanjá. O nome é muito conhecido mesmo para quem não faz parte, ou pouco sabe sobre o candomblé. Apesar de cada nação africana cultuar apenas um orixá, no Brasil, o candomblé terminou se tornando uma religião politeísta. Como os escravos vinham de diversas regiões africanas e se juntavam na mesma senzala, a junção dos cultos terminou se tornando um fenômeno afro-brasileiro.

Iemanjá é apenas um deles e talvez uma das mais importantes. A rainha do mar, segundo os mitos dos orixás, nasceu junto com os oceanos. Encantada com a terra, tratou de enfeita-la com cachoeiras e cascatas. Entregou a cada um de seus filhos uma parte da natureza. Como rainha das águas, Iemanjá é aquela que fertiliza a terra.

Para o candomblé, Iemanjá representa a deusa mãe. Arquétipo daquele que acolhe, sustenta, nutre, a elevação espiritual além da razão e, em fim, aquela que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento. Em outros contextos ela poderia ser considerada a Nossa Senhora ou a Deusa Perséfone e ainda a Iara, deusa do mar Tupi.

Ela é o símbolo da crença de um determinado grupo que encontrou através da construção desse mito uma forma de se orientar no mundo e explicar aquilo que naquele momento era inexplicável. Um famoso antropólgo, Claude Lévi-Strauss, se dedicou, por muito tempo, a estudar rituais e crenças nas mais variadas culturas. Falando muito selvagemente sobre seu trabalho, Lévi-Strauss concluiu que não importa a distância entre os povos, sempre haveria algo em comum em seus rituais e crenças. Algum ponto que poderia ser identificável em todas elas e a partir daí definiu sua teoria estruturalista.

A partir dela, ele defendia que independentemente da raça, clima ou religião, a humanidade em geral, seria regida por uma mesma estrutura mental. Pela mesma linha de pensamento Jung definiu sua teoria dos arquétipos que seriam figuras eternizadas e comuns em todos os povos, através de um inconsciente coletivo. Algo mais ou menos como um conjunto de idéias herdadas por nossos mais antigos ancestrais e revividas por outras gerações.

Assim como as outras deusas, Iemanjá também tinha seus momentos de ira com os homens. Diz a lenda, que por conta da sujeira jogada nos mares e do mau comportamento dos homens em suas águas ela inventou as ondas. Elas levariam para longe, aquilo que não presta, e dependendo da sua intensidade mostrava o tamanho de sua raiva. A partir dessa representação os homens iam moldando seu comportamento para com a natureza, desvendando seus limites e se relacionando com ela.

Outra características dos mitos dedicados as deusas é o poder de sedução. O símbolo da mulher é ao mesmo tempo aquele que doa e aquele que tira, aquele que protege e o que oferece tentação.

Dona de rara beleza, de acordo com a mitologia africana, e cheia de apetite extravagante. Iemanjá costumava seduzir pescadores e leva-los para o fundo do mar. Como meros humanos, terminavam se afogando e eram devolvidos a terra sem vida.

Noivas, mães ou esposas costumavam levar ao mar muitos presentes para que a deusa devolvesse seus homens com vida, mantivessem o mar seguro para as navegações e com muitos peixes para alimentar as comunidades. Dessa forma essas pessoas se relacionavam com os oceanos, ao invés de tentar controlar a natureza tentavam através de oferendas viver em harmonia com ela.

A figura da mulher também representa essa identidade carnal em outras crenças. Sua sexualidade muitas vezes, era voltada para o mal, a luxuria feminina atiçava os homens provocando tentações que os levavam ao pecado. Talvez como forma de instituir uma cultura monogâmica e o tabu do incesto. A mulher possível de se relacionar sexualmente e que oferece menos perigos seriam aquelas com a qual se planeja constituir uma família.

A figura ou a idéia de Iemanjá tem um papel importantíssimo na constituição da organização social dos devotos do candomblé. Nos finais de ano, além da Pop figura do Papai Noel, é muito comum, principalmente em cidades litorâneas, presenciar tradicionais oferendas a rainha do mar. São barquinhos floridos, velas, colares etc. Como forma de agradecimento ou pedidos de uma convivência leve e frutífera para quem vive junto ao mar.

Em uma época onde muito se pensa no consumo, pouco se lembra das relações, menos ainda resta para refletir sobre o contato com a natureza. A presença do culto a Iemanjá retoma a idéia do quanto somos dependentes e frágeis diante da natureza, do respeito e do carinho que devemos por tudo o que ela nos oferece e pelo nada que somos diante de sua grandeza. Parece que ainda temos muito o que aprender com os mitos!

Leia mais em: O Mito dos Orixás de Reginaldo Prandi

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4 Respostas to “Mãe cujos filhos são peixes”

  1. constança 17 17UTC janeiro 17UTC 2012 às 17:58 #

    legal essa materia, so nao entendi a alegoria que filhos da mae dágua são peixes ….
    se Claude Lévi-Strauss tivesse se interessado pelo nosso rico imaginario lendario – na sua vista ao brasil – talvez tivesse ultrapassado sua ideia de um povo com pouca alegria, poucos utensilios, pouco espaço ….. e escrito “tristes trópicos” de modo diferente …..

  2. Francis Perot 11 11UTC março 11UTC 2012 às 18:11 #

    Lindo blog. Parabéns

    • simoeslilia 12 12UTC março 12UTC 2012 às 14:50 #

      Obrigada!

    • constança 12 12UTC março 12UTC 2012 às 16:12 #

      Francis > ADORO SUA POESIA:

      Quero fazer uma bela viagem:
      da sua boca aos pés … bem devagazinho,
      parar no meio do caminho … e fazer alí a minha morada…

      abço
      constança

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