Unidos como um, divididos por zero

27 jan

As redes sociais já são o grande palco dos principais protagonistas de gritos, manifestos e ações de repúdio que, antes, pertenciam as ruas e aos cartazes de papelão. Não que tenham sido completamente abandonados. As churrascadas em São Paulo pelo metrô de Higienóplolis e direitos humanos na cracolândia, as ocupações em universidades e protestos dos estudantes pelo aumento das passagens de ônibus em Recife, estão aí como prova. Porém, todos assuntos tipo “trending topics” nas principais redes.

Uma coisa não altera ou diminui a outra, pelo contrário, parece que agrega, e como agrega. Quem tem medo do Twitter e do Facebook? Os fatos ali dentro vão tomando uma proporção enorme a partir do “ boca a boca”. Já houve casos de punição real e “apedrejamento em mural público”. Antes o que se lia nos jornais se comentava nas ruas, agora, o que se vê na internet se comenta nos jornais.

Já houveram inúmeras discussões sobre se a internet unia ou separava as pessoas e não se chega a lugar nenhum. A questão é: como a internet pode unir e como ela pode separar as pessoas? Por que união e separação já existiam muito antes daquele botão “adicionar aos amigos” pensar em ser programado.

Querem exemplo de união maior do que um imenso grupo de pessoas logadas com o propósito de derrubar o site de um dos maiores símbolos de segurança e inteligência do mundo? Os Anonymous, juntos, conseguiram fazer isso com o FBI. O grupo nem se define, na verdade ele nem é. Não existe um líder nem regras. Anonymous, como diz a própria palavra traduzida do inglês, anônimos, pode ser qualquer um. Basta querer participar de uma causa.

Em grande parte, essas manifestações, não se resumem a ações virtuais onde um bando de nerds ficam bombardeando redes e websites, muitas vezes eles nem são tão nerds. Isso pode surgir na internet como idéia e terminar num ato em si. Todas essas manifestações que mencionei no primeiro parágrafo tiveram início assim, esse é o trunfo das redes; conectar pessoas que não precisam, necessariamente, se conhecer pessoalmente.

Tudo isso se resume ao título escolhido para esse texto, retirado do manifesto dos anonymous que, particularmente, é uma frase inquietante e de certa forma esperançosa, mesmo que soe utópica. Unidos por uma causa e divididos por nada. Para uma geração que, como bem disse Matheus Pichonelli em sua coluna na Carta Capital: “nascida em meados dos anos 80 e criada nos 90, foi o maior baby boom de bundões que o Brasil já testemunhou; crescemos com medo da violência, das doenças sexualmente transmissíveis e do outro (do favelado ao muçulmano) e, por este motivo, decidimos nos enclausurar em bolsões de segurança (o shopping, a escola particular e os condomínios fechados) para poder nascer e morrer em paz, sem grandes objetivos na vida a não ser aceitá-la”.

Parece que alguma coisa começa a acontecer, nem que seja ao menos um ensaio. Para finalizar, o que me preocupa, não é nem se a internet une ou separa as pessoas, física ou virtualmente falando. O que me preocupa são os distanciamentos. Preocupados com o que está acontecendo com pessoas a quilômetros de distancia, engajados em doações, em proteger cracoleiros e aflingir os corações com a probreza e sofrimentos distantes esquecemos de, apenas, olhar para o nosso lado.

Esse foi um grande erro da geração de bundões, ter que se proteger do próprio erro, do próprio descaso, da própria omissão. Quantas serão as pessoas que correm até as ruas e redes sociais exigindo direitos humanos quando, dentro da própria casa, paga apenas um salário mínimo injusto quando poderia pagar um pouco mais, quando poderia pagar um colégio particular para o filho daquela sua funcionária que todos os dias cuida da sua casa com zelo, dar uma chance a essa criança. A mesma coisa com funcionários de sua empresa, aquele que você acha que merece, que tem algum potencial. Devem existir alguns.

Um ato de solidariedade com quem está ao seu lado, pode vir, mesmo que a longo prazo, a diminuir o número de pessoas pobres e ocupantes da cracolândia, pode diminuir seu medo, ou o dos seus filhos, de andar nas ruas. Nem se fala então dos omissos por completo. Aqueles que pensam que é um mundo distante, mas que ta bem ali do lado. O seu menosprezo é o desejo de esconder sua própria fragilidade e do mundo em que você vive. Num ato desesperado de viver em um “faz de conta” que não existe. Essa é a distância que me preocupa.

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