Falando mais sobre Kevin

8 fev

Amor e desejo são elementos que promovem, desde muito cedo, uma vida mentalmente saudável. A habilidade de amar, criar vínculos e se abastecer de sentimentos é constituída nos primórdios de nossas relações, desde a história geracional de nossa família, passando pelo desejo real dos pais em gerar ou criar um filho, até o ambiente em que se é criado.

São essas sucessões de fatos, vínculos, desejos e relações que, de acordo com as diversas linhas de estudos da psiquê humana, faltam aos psicopatas. Todas concordam com a teoria de que não existe um fato isolado capaz de tornar a pessoa inapta de sentir emoções e sentimento de culpa. Muito menos uma formula para impedir que eles existam. As relações humanas e a estrutura psíquica dos indivíduos são por demais complexas para que se chegue a exatidão. Embora, na maioria das vezes, as mães são apontadas como as principais responsáveis.

No filme: Precisamos Falar Sobre Kevin, adaptação do ficcional livro de Lionel Shriver de mesmo nome,a mãe de Kevin, muito bem interpretada por Tilda Swinton sofre todas as agruras pessoais e sociais pelo fato de ser mãe de um psicopata que acaba cometendo o assassinato de 11 pessoas.

Eva, o nome da personagem, era escritora e roteiros turísticos para jovens. Passava a maior parte do tempo conhecendo vários países e levava uma vida livre e alegre em NY. No auge de sua carreira e de seu relacionamento amorosos ela acaba engravidando acidentalmente. Caso fosse um menino o pai escolheria o primeiro nome e levaria o sobrenome da mãe, Katchadourian, de origem armênio vindo de um povo que foi cruelmente massacrado.

Kevin já carregava o nome com peso histórico de violência, uma mãe que não o desejou e nem mesmo queria ser mãe. Depois que o filho nasceu, ela claramente demonstra que sua vida tinha mudado para pior e, aborrecida, deixa isso transparecer para Kevin. Diante dessa configuração, o pai também tem um papel importante em sua própria ausência, não física, mas de consciência em relação ao filho e ao que acontecia com ele. Kevin não tinha amigos, tinha atitudes estranhas em casa e os professores comentavam sobre seu comportamento.

O garoto alimentou o ódio pela mãe que nunca o amou, nem tampouco o desejava. O psicopata perde parte de sí quando não se significa a partir do amor primário, aquele amor vindo da fantasia da mãe sobre ele, do desejo de gerar e criar essa criança ainda quando eles são partes de uma unidade. Se kevin não foi amado ele não tinha capacidade de constituir habilidade de amar.

Por outro lado, Kevin parece ter tido um pai que o desejou e que o amou. Parece, porque se de fato ele o tivesse amado verdadeiramente emocionalmente, não teria se ausentado e permanecido tanto tempo cego em relação ao filho. Ele contribuiu para a constituição de um cenário familiar, mas não atuou dentro dele.
Finalmente enveredamos para o lado social e ambiental que proporcionaram a constituição de sua estrutura perversa. A instituição familiar tradicional ainda vive seus momentos de modelo regente da sociedade, ou seja, é muito mais “correto” e “normal” que uma família se estruture na figura de um homem (pai) e uma mulher (mãe), mesmo que entre eles não haja cumplicidade e amor e, principalmente, capacidade emocinal e desejo de criar um filho.

A sociedade ainda coage à mulher a maternidade, mesmo que muitas, hoje em dia, consigam se livrar da culpa e das cobranças por não se tornarem mãe. Além da palavra mãe ainda carregar, tomando as palavras de Elizabeth Badinter, o mito do amor materno. Quando se dizia que o amor de mãe seria um sentimento inato e incondicional, e é para algumas, mas não serve de regras para todas. Hoje ainda é tabu falar que é possível uma mãe sentir raiva de um filho ou mesmo preterir um a outro.

Essa relação entre pais e filhos, crianças monstros e abandonos não é uma novidade contemporânea. A tragédia de Édipo, o romance O Perfume, os filmes a Profecia e o Bebê de Rosemary são exemplos antigos e mais recentes, talvez não tão explícitos como em Precisamos falar sobre Kevin, mas que tratam dessa ambigüidade que é possível existir em uma relação tão complexa e muitas vezes simbióticas entre pais e filhos. E entre consciência ética e moral em uma sociedade constituída por diversas personalidades.

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