Insignificante é não fazer nada

13 abr

A nossa geração, pós ditadura militar, mergulhou em um eco temporal onde tudo parecia ter sido conquistado. Depois de um época tão repressora, os filhos dos que viveram na ditadura estavam colhendo os frutos da liberdade de expressão, da paz e do amor livre. Os jovens dos anos 80 viveram aquela “letargia” com discurso niilista.

Dá sensação de que houve um pulo entre tempo e espaço. A geração que viveu a repressão militar não transmitiu aos filhos o quanto era duro viver sob tantos limites e tantas injustiças e o quanto foi importante ser politizado e unirem forças contra o regime. Sem generalizar, mas de fato isso ocorreu, seja por tabu ou por omissão. Acontece que esses pais libertaram os seus filhos talvez na expectativa de que eles não passassem por aquilo que eles passaram um dia, como se a luta tivesse chegado ao fim.

O resultado é que a geração oitenta e as seguintes foram se constituindo na individualidade. O sujeito com liberdade de escolhas, do tudo é permitido. Aquele que pode dizer com segurança: “Eu posso ser aquilo que desejo ser e isso só depende de mim mesmo”. Esse indivíduo não se vê obrigado a responder à uma instância superior, diferentemente das sociedades patriarcais, quando tinham que prestar contas sociais a figura de um ditador, religiosas a um Deus ou autoridades familiares.

É um sujeito que se encontra no mundo sem destino pré-estabelecido, seu futuro e suas escolhas depende apenas de seus próprios atos e decisões. Isso nos coloca em posição individualista, em troca há o empobrecimento da coletividade. O fim do século XX e início do XXI marca as personalidades solitárias, egoístas e sem idéias em comum.

Um dos artistas ícone dessa juventude é Cazuza, aquele que viveu inconsequentemente só o “bom” da vida e cantou uma das frases marcantes dessa época descrevendo o vazio de expectativas dessa geração com: “Ideologia, eu quero uma pra viver”.

Talvez esses hiatos sejam necessários, haveria de ter um período para que fatos e acontecimentos sejam digeridos por gerações e concordo com Bauman, tão em alta hoje, quando teoriza sobre a modernidade líquida onde tudo é mais volátil, nada é tão sólido e estável como antes. Porém, penso que isso não significa uma evasão total do sentimento de grupo.

Eu particularmente sou muito otimista em relação ao ser humano e sua capacidade coletiva e do olhar para o outro. Acho que esse período de liquidez e individualidade é necessário. Precisamos viver a solidão para percebemos o quanto precisamos do outro. Citando Thomas Ogden, psicanalista americano; “A idéia de que, ao longo da vida do indivíduo: “É preciso (ao menos) duas pessoas para fazer uma” (Bion, 1987) é inerente a esta noção de pensamento intersubjetivo”.

Por mais que as pessoas estejam usando os meios virtuais para reclamar e se juntar, por mais que pareça não se indignarem com os absurdos de nosso senado, a hipocrisia da sociedade e a violência, vejo muitas movimentações coletivas por nossos direitos.

A exemplo do Ocupe Estelita no próximo domingo em Recife onde moradores da cidade estão se mobilizando em defesa do patrimônio histórico, da paisagem e contra uma intervenção arquitetônica esdrúxula de grupos privados e consequentemente restritiva. Se juntam para que os espaços sejam revitalizados, porém preservem uma das características do Recife e continuem tendo acessos possíveis a população em forma de teatros, cinemas, museus, bibliotecas etc. Ou seja, que seja um espaço de cultura e coletividade.

Se essa vitória for possível, talvez as pessoas voltem a acreditar na possibilidade de reivindicar os direitos e que juntas em grande número isso é mais fácil. Podem voltar a olhar e caminhar ao lado do outro fazendo coro e levantando a voz. A partir de um ato que “parece” ser menos significante do que tantos outros absurdos que acontecem no nosso país, pode servir de exemplo e estímulos para outros bem maiores.

Raquel Rolnik, urbanista e professora de arquitetura da USP, comentou sobre o projeto do cais: http://raquelrolnik.wordpress.com/2012/03/19/grupos-se-mobilizam-no-recife-contra-projeto-imobiliario-no-cais-jose-estelita/

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3 Respostas to “Insignificante é não fazer nada”

  1. constancabarbosa 13 13UTC abril 13UTC 2012 às 20:50 #

    beleza de materia: consciencia politica, maturidade, envolvimento… PARABENS !!
    ESTAREMOS LHE REPRESENTANDO NO CAIS ESTELITA DOMINGO !

  2. Beth Araújo 14 14UTC abril 14UTC 2012 às 11:48 #

    Parabens pela iniciativa e pelo texto. A acomodação e o pouco caso que fazemos das coisas comuns, sem a solidariedade na luta por nossas idéias permitem que os “poderosos” e corruptos dominem o mundo.

  3. theo 14 14UTC abril 14UTC 2012 às 16:32 #

    Gostei do texto, só acho que houve uma falha temporal. Os anos 80 não foi uma época de colher frutos e viver apenas para si, a maior parte dos jovens não viveu em letargia, até porque para os economistas foi a década perdida e essa insatisfação esteve refletida nas letras das bandas de rock no Brasil. Se você pegar as letras das bandas dos anos 80, o mesmo Cazuza que o texto citou, cantou também: “Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim” ; ” A tua piscina tá cheia de ratos, tuas idéias não correspondem aos fatos”; “vamos pedir piedade, senhor piedade, pra essa gente careta e covarde”. Outros exemplos da geração 80 são paralamas, legião, engenheiros, ira. Foi um dos momentos mais políticos do nosso rock e era o retrato da geração da época. Nos anos 90 e 00 é que tivemos um período onde os jovens já encontraram muita coisa já definida e voltaram-se pra si. Bandas como Nirvana, Skank, Raimundos, Guns n Roses, Jota Quest, refletem talvez tal letargia. Isso sem falar na avalanche de jovens que encontraram na música baiana a sua forma de expressão, afff, …toda a cidade se rendia às “bailarinas” arreganhadas nos trios…..Isso sim foi letárgico

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