No Hay Banda

27 abr

David Lynch é um otimista perseverante na expectativa de que, um dia, as pessoas vão gostar de abstrações tanto quanto curtem objetividade. Vão se deixar sonhar e considerar as coisas que não nessessariamente se somam. Fora isso Lynch é um diretor de cinema, escritor e dono de um bar em Paris chamado, Club Silencio. Seus filmes são conhecidos pelo descompromisso com a tradição cinematográfica hollywoodiana.

Quem assistiu Cidades dos Sonhos, Veludo Azul ou acompanhou a serie de TV Twin Peaks e muitos outros, sabe do que estou falando. Se não sabe experimente. Ocorre que o estilo fantasiástico de Lynch leva quem não tem paciência a dizer: Esse cara jogou essas imagens ai e vocês que curtem ficam tentando encontrar uma razão. Sem querer fazer a cult de boteco, até porque muitos deles eu não entendi nem acho que tem que entender alguma coisa, mas acho os filmes muito bem pensados, a começar pelos personagens.

Assistir aos filmes são experiências inomeáveis que envolvem sentimentos e afetos que não conseguimos por em palavras, aquilo que não existe significação. Uma estética que também não encontra muito espaço, pois os tratados sobre o assunto preferem preocupar-se com o que é belo, atraente e sublime e não com os sentimentos opostos, aflição e estranheza. A estética dessas filmes abre espaço para o absoluto no sentido de que deixa o expectador decidir o que é belo e o que é repulsa, abre a experiência cinematográfica para a subjetivação.

Essa incapacidade de atribuir significação ou lógica é muito descompensadora para algumas pessoas. O ato de ver um filme, normalmente, propõe a entrega já mastigada das idéias tornando o expectador um receptor passivo. Nada contra degustar esse tipo de entretenimento. No entanto, existem outras possibilidades e, talvez, não estamos culturalmente e psicologicamente abertos a esses outros modelos.

É difícil para nós ocidentais, “detentores” da racionalidade vivenciar uma experiência emocional bruta, aquelas que não tem razão nem explicação, de forma tranqüila. Isso faz com que David Lynch tenha, a grosso modo, duas categorias de expectadores. Aqueles que acham perca de tempo e os que tentam a todo custo decifrá-lo.

Vejo inclusive ensaios psicanalíticos na tentativa de teorizar personagens e roteiros com explicações sobre o inconsciente, sonhos, neuroses e fantasias. São essas inquietações que tornam seus filmes uma experiência subjetiva acionada. As abstrações levam as pessoas a colocarem suas opiniões e seus pensamentos sobre o que viram e não ao contrário.

O que acontece afinal com quem se propõe a olhar os seus filmes? O que neles nos desorganiza a ponto de gerar repúdio, encantamento e levar a tantas tentativas de organizá-los em uma lógica? Podemos pensar no sentimento angustiante que sentimos diante do inexplicável, do estranho.

Joseph Sandler, psicanalista, defende que a mente humana tem dificuldade em conter abstrações imateriais dentro dos limites psíquicos. Parece haver uma tendência universal para substituir a realidade psíquica por realidade material. Antes de conseguir simbolizar conscientemente as emoções até colocarmos em palavras, passaríamos por uma impressão sensorial bruta, esta, por suas vez, seria “digerida” pela mente até que conseguíssemos pensar racionalmente sobre ela.

Todo mundo já deve ter tido uma experiência emocional sozinho, a dois ou em grupo, que é difícil colocar em palavras para terceiros entenderem. Algumas delas geram explicações metafísicas, místicas ou religiosas. São impressões sensoriais sem significação para nosso nível de racionalidade e repertório. Algumas vezes as abstrações nos levam a lidar com esses conteúdos “anímicos” e singulares. O interessante dessa experiência é que cada pessoa constrói uma explicação diferente sobre a mesma coisa.

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