Nem toda nudez será castigada

24 ago

Os elementos simbólicos, históricos e de senso comum que temos hoje para pensar o século passado são basicamente a de um patriarcado extremamente machista onde os pudores sobre o corpo e a sexualidade só eram permitidos nas entranha dos bordeis, longe dos lares onde viviam as famílias regidas pelos bons costumes. E, nesta sociedade hipócrita, entendia-se por bom costume, além de muitas outras coisas, o mistério sobre o corpo. Isto porque ele era o local sagrado onde se dava o milagre da reprodução.

Isto, claro, para as moças e mães de família. Pensamos no século passado como terra da pudicagem. Costumamos generalizar o passado sem lembrar que para todas as regras sempre houveram exceções. No século XX a imprensa já colocava nas ruas revistinhas masculinas. Tudo bem, eram aquelas mulheronas de calçolões e um, isso! apenas um bico do peito de fora. Artistas e poetas faziam orgias, gay e lésbica casavam entre si para se livrar do matrimônio “de verdade”.

Claro, eram exceções a regra. A grande maioria da sociedade era mesmo, ou fingia ser, regrada. O contato visual com o corpo, inclusive partes “picantes” estava totalmente ligada ao sexo. Para a igreja era pecado e para a medicina era porta para loucura, quem já se viu uma mulher em sã consciência ficar nua na frente de marido!?

Mas, eis uma exceção curiosa e um pensamento que até hoje, século XXI, parece modernísssima. Em 1900 era lançada na Inglaterra uma revista chama Health and Efficiency. Publicada por adeptos do naturismo “defendiam que as pessoas verdadeiramente educadas não se excitariam jamais com a vista de uma parte do corpo humano desnuda … o naturismo via o nu como uma forma de revitalizar o físico e de respeitar o planeta. A idéia era dessexualizar o nu, pois, realizando pelado todas as atividades cotidianas, o naturista banalizava a nudez, instaurando igualdade e simplicidade na relação com os outros”.

O trecho foi tirado do livro Histórias Intimas de Mary Del Priore e nos diz muito sobre as variações de pensamentos nos espaços e tempos. E depois de ler isso fiquei me perguntando: Porque até hoje o nu escandaliza, gera reações de reprimenda ou simboliza sedução, principalmente o feminino? Será porque ainda está muito relacionado a sexualidade e sexualidade ainda é vista com olhos de pudor?

Vide o velho caso da moça na faculdade com o rosinha básico curtíssimo sendo “apedrejada”. Ativistas do FEMEN mostrando os peitos em protestos por causas feministas e muitas vezes sendo criticadas ou presas por isso. E por fim a popularizada marcha das vadias que saem nas ruas com seus corpos a mostra para dizer: Essa carne é minha e se eu mostro ou exponho qualquer parte dela, isso não te da o direito de invadir meu corpo!

O nu, o corpo e o sexo ainda causam angustias sociais e culpa para muitos sujeitos. Exceto mais uma vez pela festa da carne, o carnaval! É nele que todas as regras dessem ladeira a baixo, o pudor tapa os olhos para as mulatas com as tetas balançando pra todo mundo ver. Exceto entre quatro paredes, na tela do computador, nas revistas escondidas no banheiro. Nossa sociedade ainda continua hipócrita e se apega a convenções do corpo sexualizado. Como se fossemos animais guiados por instinto.

O que nos diferencia dos bixos é uma capacidade de simbolização, ou seja, não comemos apenas porque sentimos fome, para satisfazer uma necessidade meramente biológica. Damos outro significado a comida, comemos pra matar uma ansiedade, para ter prazer ou comemorar. A mesma coisa sobre o sexo, resimbolizamos o ato reprodutivo. Os fetiches, as escolhas dos parceiros, as fantasias sexuaiis o amor ou a vontade, sexo tem muito mais em volta do que mero instinto.

E sim, mesmo para os homens! Muitos deles hoje não se sentem obrigados a transar com qualquer uma para se mostrar viril. Não estou dizendo pra todo mundo tirar a roupa e realizar as tarefas cotidianas, antes que os extremistas pensem isso! Mas, o corpo não precisa estar remetido o tempo todo a sexo e nem sexo precisa estar remetido o tempo todo a algo nebuloso, feio. Um peito é apenas um peito e o sexo, bom o sexo é muita coisa!

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