O outro além do óbvio

11 out

O que você diria de uma pessoa sólida que não muda e sempre tem a mesma impressão? No mínimo pensaríamos em um cabeça dura retrógrado. Uma pessoa que vai contra a natureza humana essencialmente maleável, adaptável e mutante. Pelo menos é isso que se espera. Nós temos essa mania antiga de definir e limitar pessoas muito difundida na cultura ocidental, os estereótipos.

A definição no início do texto faz parte da etimologia da palavra. Do grego stereos e typos, juntando tudo ficaria algo como impressão sólida. Era inicialmente usada para nomear as placas de impressões. E posteriormente passou a definir em nossa sociedade grupos de pessoas na tentativa de dar características comuns de forma preconcebida. Comportamento que levou a muitos tipos de preconceitos e discriminação. Ou seja, sólido é aquele que não distingue diferenças e acaba entrando na catalogação de vidas.

E as nossas está cheia deles. Os ternos e gravatas que inclusive passeiam pelo nosso clima tropical é indispensável para passar confiança, status, autoridade. Ele é usado para impor respeito e, por isso, no calor de 30 graus, torna-se imprescindível. O jaleco! Tem doutor que não tira o jaleco nem na hora de almoçar, isso é anti-higiênico. Mas o cara de jaleco é o cara! Ele vai ser tratado com respeito então porque tira-lo e virar um zé qualquer?

Fernando Braga da Costa, psicólogo e doutor pela USP, sem querer estereotipar mas já “tipando”, fez uma experiência sensacional. Passou alguns dias vestido de gari pelo campus e sentiu-se transformado em um homem invisível. As pessoas se quer olhavam para ele e muito menos o cumprimentavam. Da trajetória lançou o livro: Homens Invisíveis; Relato de uma humilhação social. Diz que as pessoas simplesmente não lhe dão atenção pelo simples fato de estar usando um uniforme.

A sociedade cria os estereótipos ou eles vão sendo impostos através das instituições? A resposta parece bater na tecla do quem nasceu primeiro, o ovo o galinha? De fato não importa, o que vemos é a industria do consumo reforçar os tipos e tentar conduzir as pessoas a se encaixar, a mídia exalta uns e metralha outros e por fim as instituições sociais o utilizam para reforçar regras sociais e enquadrar os cidadãos.

Individualmente o estereótipo pode ser autorealizante. As pessoas que procuram se encaixar em algum tipo, inconscientemente, na hora que se vestem deles terminam incorporando tudo aquilo que determinado estereótipo representa e passam a se familiarizar com a idéia, tipo criança com roupa de super-herói. O estudante de direito que veste o terno e o médico que se recusa a tirar o jaleco para entrar em um restaurante, incorporam a potência e autoridade que a sociedade lhes doa. O gari que usa sua farda e trabalha tão dignamente quanto os outros sente-se humilhado e inferior, mesmo que não seja, mesmo que seja um cidadão mais digno que qualquer outro.

Para não terminar caindo ou nos tornando os próprios personagens de opiniões preconcebidas é muito útil se afastar de julgamentos generalizados. Apurar o senso critico e desenvolver o hábito de não se contentar com o óbvio. Na nossa sociedade tudo é pronto, tudo nos é oferecido de bandeja. Televisão e internet só precisamos digerir. A praticidade e agilidade que nossa sociedade exige aplaca nosso senso de raciocínio e curiosidade. Isso termina ocupando espaço nas relações. Hoje ninguém quer se abrir, se deixar conhecer entre nossas fragilidades e sucessos, somos só sucesso, somos só bacanas.

Também não se busca conhecer o outro além do óbvio. Vivemos em grandes vitrines de objetos usados, virando peças do mesmo! .

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: