Caverna de Chouvet

26 fev

A natureza, vez ou outra, prega uma peça! Seja em forma de grandes catástrofes, devastando e impondo respeito, ou através de suas sutilezas, ela nos ajuda a encontrar respostas para os vários questionamentos humanos. Na primeira e mais brusca forma, ela coloca a questão do total controle do homem sobre ela, de nossa imaginária potência como espécie e de nosso narcisismo. Diante da natureza não somos ninguém. Hoje sabemos disso e pensamos em formas de agredi-la menos. Mas não importa de que jeito ela se impõe ou mostra suas facetas, a questão é que de outras maneiras ela nos proporciona muitos presentes. Dentre os últimos, poderia dizer que ela nos leva a um belo passeio pelo tempo. O documentário “A caverna dos sonhos esquecidos (cave of forgotten dreams)” de Werner Herzog, é um documentário em 3D sobre uma caverna no sul da França, a Caverna Chouvet, intocada por mais de 30.000 anos. Um deslizamento de terra fez com que uma rocha vedasse sua entrada, mantendo um clima lá dentro propício a conservar rastros de nosso antepassados como se estivesse passado por alí ontem. São desenhos, ossos e outros instrumentos que permitiram a vários cientistas fazerem perguntas e conseguir responder algumas delas. Os diálogos interdisciplinares, entre arqueólogos, historiadores de arte, paleontólogos e etc, leva o espectador a um encontro com sobras de nosso passado. O filme foge completamente do formato estereotipado de documentário de acordo com as palavras de Herzog: “O segredo é capturar o público no início do filme e deixá-lo ir no final”. É bem por ai, depois que você entra na caverna você não sai de lá a mesma pessoa!

Vou colar o trailler do filme aqui. Mas se tiverem a oportunidade não deixem de fazer essa experiência em formato 3D, a gente se sente lá dentro junto com a equipe de cientistas, ela é bastante enriquecedora!

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Entrevista Joyce Macdougall

21 nov

Psicanalista neozelandesa radicada França, Joyce Mcdougall tem seis livros publicados e traduzidos para diversos idiomas. Ligada ao teatro desde criança por causa de
seu avô, que organizava tradicionais peças no final de ano, se manteve ligada a ele durante a universidade e trouxe essa herança para seus textos e pensamentos sobre a psicanálise. Atualmente tenho lido Teatros do Corpo e não passa despercebida as metáforas teatrais que ela usa como forma de visualizar cenas sutis do processo psicanalítico e do funcionamento psíquico de seus pacientes.

A sua perspectiva da situação analítica é extremamente humana. Ela não leva em conta o analista como um “ser de saber” que está alí para ajudar o paciente a se haver com seus conflitos. Mas enxerga a análise como uma relação a dois, bastante complexa que envolve tanto a mente do analisando como a do próprio analista, as expectativas, anseios e desejos de ambos. O reconhecimento de sua contribuição para desvendar os mistérios do universo psíquico a levou a India, convidada por Dalai Lama. Interessado em entender as contribuições de Freud no pensamento ocidental ela deu algumas palestras por lá.

segue um link de uma entrevista sua no ano 2000 sobre o que ela pensa sobre o adoecer e a vontade de entrar em um processo analítico na atualidade:

Entrevista Joyce Mcdougall, 2000.

Lady Gaga e a atitude maníaca atual de conceituar

9 nov

A garrafinha no chão do pavilhão da trigézima Bienal de São Paulo, foi, na minha opinião, um dos acontecimento mais contestadores do ano da estética contemporânea que envolvem os salões e artes, os desfiles de moda e diria até os requintes gastronômicos que causam frenezi em muitas pessoas que, na maioria das vezes, não sabem nem o que estão comendo. Não estou condenando nenhuma dessas experiências sensoriais, estou apenas questionando o fato de muita gente insistir em tirar leite de pedra. Confabular significações e significados, sobre determinada obra. Discutir intenções revolucionárias por trás de um vídeo clipe ou antropologia no teatro gastronômico de determinado chef.

Pode existir, mas não é o tempo todo assim e nem precisa. As pessoas precisam relaxar mais um pouco. Como escreveu Magritte em seu quadro onde retrata um cachimbo: Isto não é um cachimbo, fazendo uma brincadeira com aquilo que a gente olha e aquilo o que a gente enxerga. E a garrafinha era apenas uma garrafinha. Para quem não ficou sabendo o episódio foi rápido, não tão dolorido, mas deu seu aviso. Que nem picada de agulha! Alguém, não sei se de propósito ou não, deixou uma garrafinha dessas de plástico com um resto de água encostada numa das paredes do prédio da Bienal, a pessoa pode não ter encontrado um depósito de lixo ou quis brincar com a reação das pessoas.

Parece que deu certo. Algumas se prostraram diante dela, admiraram, passaram dirreto, outras cerravam os olhos e colocavam a mão do queixo e com certeza, devem ter teorizado muito sobre aquele objeto ali solitário. Sobre o fato dela está somente ¼ completa, aquilo poderia significar, sei lá, o vazio social. Sabe? Coisas desse tipo que as pessoas pensam e falam. Eu li sobre a garrafinha num artigo da Folha de São Paulo, segue o link para não dizerem que estou inventando: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/66454-conceito-da-bienal-passa-despercebido.shtml

Esses questionamentos já são antigos. Duchamp levou um vaso sanitário largou lá no júri de uma exposição assinado com um outro nome e eles quebraram a cabeça até arrumarem um conceito sensacional para a “obra”. Nelson Leiner pegou um porco intalou o bixo dentro de uma caixa de madeira e fez a mesma coisa, o povo fervendo os miolos corpudos de anos de academia para entender o que é arte e o que ela quer nos dizer. Gosto da arte quando ela nos toca e quando ela nos faz pensar, mas tem muita obra que transborda o exagero ou talvez essas sirvam apenas como conseqüência de escape criativo do próprio artista e signifique ou toque apenas ele.

Não seria inteiramente fora de ordem pensar isso. Se a arte algumas vezes reflete a cultura onde ela se cria, um artista que cria uma obra para ele e que só comova a ele é a cara de nossa sociedade. Hoje mais do que nunca funcionamos pouco em comunidade, os sujeitos nascem e morrem para si, trabalham e vivem para si. Uma sociedade em grande parte individualista, egoísta e egocêntrica. Porque deveria ser diferente no meio das artes?

Aí eu me pego pensando. O que vale mesmo é o “teatro”, o grande espetáculo por trás de uma obra e seu artista, por trás de um cantor ou por trás daquele chef que faz um cuscuz com picolé inventado por ele parecer a oitava maravilha do mundo.

Em fim, eu comecei esse texto com o intuito de falar da Lady Gaga. Ela vai fazer show esse fim de semana em São Paulo e os jornais deram um lugar específico para ela. Não foi a toa que saí vomitando sobre essa tendência conceitualista, pra mim ela representa muito tudo isso. É tanta exuberância, tanta fantasia, tanta performance, como se vestir de carne, que chega a ser perverso. O vicio de mascarar/teatralizar não serve aqui no sentido carnavalesco de esconder a cara ou encarar um personagem, mas serve para esconder o fato de que não existe nada de sólido ali dentro.

E li hoje um monte de textos de pessoas querendo conceitualizar a estética “gagaística”, falam de liberdade, feminismo, papeis de gênero, psicanálise e por ai vai. Olha, nada contra as pessoas pensarem, criar teorias ou questionar. Não é isso, de jeito nenhum. Mas as vezes uma comida é apenas uma comida, uma roupa apenas uma roupa, e uma cantora apenas uma mulher querendo fazer sucesso. E pra mim Lady Gaga está para contestadora do pós-feminismo liberalista moderno sei que lá, assim como a garrafinha plástica está para as artes contemporâneas.

Cindy Sherman, as coisas e as pessoas

19 out

Eu tinha acompanhado há alguns meses essa retrospectiva através do site do MOMA. Eles oferecem uma visita virtual pela exposição. Algumas das series de fotografias vem acompanhadas com comentários da curadora, Eva Respini, ou um tipo de release com informações e curiosidades sobre as peças. No link abaixo você entra direto na retrospectiva Cindy Sherman do MOMA e arrastando a barra de rolagem ficam as seções separadas por salas. No menu que fica na parte inferior é fácil encontrar o ícone de uma caixa de som com o áudio ou outro ícone para texto. Essas são as facilidade e maravilhas do mundo moderno para quem não está em NY.

http://www.moma.org

Os vários retratos são em maior parte denuncias de estereótipos. Ela se coloca na frente da câmera ou produz imagens que vão questionar ou ironizar os modelos e atores sociais, mas sempre através do corpo e elementos estéticos. O curioso é atentar para os pequenos detalhes ou sugestões que ela dá través de elementos da direção de arte das fotografias

Uma das séries mais antigas de meados de 1970, faz uma critica aos papeis possíveis das mulheres na sociedade. Ela se coloca nesses personagens e fotografa de maneira natural, o material poderia ser a foto de qualquer um.

Mais pra frente acompanha o mercado de consumo e seu papel sobre as mentalidades e comportamentos, criticando os valores excessivos que as comunidades dão as exigências da moda por exemplo.

Nas fotografias ela incorpora desejos, papeis, valores, imposições, tipos, afetos e mentiras. Critica lugares marcados e exigências do mesmo experimentando em cada forma, em cada mulher, em cada alegria ou em cada dor as várias facetas da uma personalidade humana que se desdobra cada um a sua maneira para tentar sobreviver a vida e aceitar os processos de envelhecimento.

Através das imagens ela sugere as ambivalências que cada sujeito humano carrega na sua “alma”. Porque nunca seremos um, somos tantos em meio ao tempo e nossa carne, abrigamos várias identidades dentro de uma só mente e ao mesmo tempo a diversidade nos faz únicos.

Tudo isso foi apenas pra dizer que essa mesma retrospectiva do MOMA vai chegar na Pinacoteca do Estado de São Paulo em 2013, sem data definida.

O outro além do óbvio

11 out

O que você diria de uma pessoa sólida que não muda e sempre tem a mesma impressão? No mínimo pensaríamos em um cabeça dura retrógrado. Uma pessoa que vai contra a natureza humana essencialmente maleável, adaptável e mutante. Pelo menos é isso que se espera. Nós temos essa mania antiga de definir e limitar pessoas muito difundida na cultura ocidental, os estereótipos.

A definição no início do texto faz parte da etimologia da palavra. Do grego stereos e typos, juntando tudo ficaria algo como impressão sólida. Era inicialmente usada para nomear as placas de impressões. E posteriormente passou a definir em nossa sociedade grupos de pessoas na tentativa de dar características comuns de forma preconcebida. Comportamento que levou a muitos tipos de preconceitos e discriminação. Ou seja, sólido é aquele que não distingue diferenças e acaba entrando na catalogação de vidas.

E as nossas está cheia deles. Os ternos e gravatas que inclusive passeiam pelo nosso clima tropical é indispensável para passar confiança, status, autoridade. Ele é usado para impor respeito e, por isso, no calor de 30 graus, torna-se imprescindível. O jaleco! Tem doutor que não tira o jaleco nem na hora de almoçar, isso é anti-higiênico. Mas o cara de jaleco é o cara! Ele vai ser tratado com respeito então porque tira-lo e virar um zé qualquer?

Fernando Braga da Costa, psicólogo e doutor pela USP, sem querer estereotipar mas já “tipando”, fez uma experiência sensacional. Passou alguns dias vestido de gari pelo campus e sentiu-se transformado em um homem invisível. As pessoas se quer olhavam para ele e muito menos o cumprimentavam. Da trajetória lançou o livro: Homens Invisíveis; Relato de uma humilhação social. Diz que as pessoas simplesmente não lhe dão atenção pelo simples fato de estar usando um uniforme.

A sociedade cria os estereótipos ou eles vão sendo impostos através das instituições? A resposta parece bater na tecla do quem nasceu primeiro, o ovo o galinha? De fato não importa, o que vemos é a industria do consumo reforçar os tipos e tentar conduzir as pessoas a se encaixar, a mídia exalta uns e metralha outros e por fim as instituições sociais o utilizam para reforçar regras sociais e enquadrar os cidadãos.

Individualmente o estereótipo pode ser autorealizante. As pessoas que procuram se encaixar em algum tipo, inconscientemente, na hora que se vestem deles terminam incorporando tudo aquilo que determinado estereótipo representa e passam a se familiarizar com a idéia, tipo criança com roupa de super-herói. O estudante de direito que veste o terno e o médico que se recusa a tirar o jaleco para entrar em um restaurante, incorporam a potência e autoridade que a sociedade lhes doa. O gari que usa sua farda e trabalha tão dignamente quanto os outros sente-se humilhado e inferior, mesmo que não seja, mesmo que seja um cidadão mais digno que qualquer outro.

Para não terminar caindo ou nos tornando os próprios personagens de opiniões preconcebidas é muito útil se afastar de julgamentos generalizados. Apurar o senso critico e desenvolver o hábito de não se contentar com o óbvio. Na nossa sociedade tudo é pronto, tudo nos é oferecido de bandeja. Televisão e internet só precisamos digerir. A praticidade e agilidade que nossa sociedade exige aplaca nosso senso de raciocínio e curiosidade. Isso termina ocupando espaço nas relações. Hoje ninguém quer se abrir, se deixar conhecer entre nossas fragilidades e sucessos, somos só sucesso, somos só bacanas.

Também não se busca conhecer o outro além do óbvio. Vivemos em grandes vitrines de objetos usados, virando peças do mesmo! .

Seriado, propaganda e homenagem

6 set

Veremos…achei cópia demais do americano.

E no “dia” do sexo…

Vídeo comemorativo da Sociedade Americana de psicanálise

Em noite de Lua Azul…

31 ago

* Para ler ouvindo – Blue Moon | The Marcels

Esse dia 31 de agosto de 2012, o derradeiro do “mês do desgosto”, vai ser um tanto especial. Uma fenômeno raro acontece hoje e justamente no ano cheio de mistérios e conspirações sobre alinhamento de planetas, fim do mundo, calendário Maia e misticismos. Estou falando da Lua Azul, é assim conhecida a Lua cheia que aparece duas vezes no mesmo mês. A última vez que isso aconteceu foi no dia 31 de setembro de 2009 e futuramente em 2015.

Apesar do nome, não significa que ela vá nascer com a cor azulada. Na verdade os tons da lua podem variar de uma coloração esbranquiçada até amarela, dependendo de sua proximidade com o horizonte. O termo Lua Azul foi criado no século XVI por uma simples discussão entre amigos astrônomos, uns teimavam em dizer que a cor da Lua era azul e outros retrucavam que jamais! A cor da Lua era cinza. O fato é que o cinza pegou. E o azul virou um ditado para os noivos enrolarem o casamento tipo: “Só me caso com você se a Lua estiver azul”. Terminou que o nome ficou para designar o fato que ocorre duas vezes em um só mês, um evento raro. E por isso ficou também conhecida como uma noite para possíveis romances.

Como acontece com todo evento cósmico extraordinário, criam-se logo especulações, ritos e expectativas. Dizem por aí que essa Lua está cheia de força magnética aumentando as consciências mágicas, possibilitando inclusive o contato com mundo mágico de outras dimensões. Sinceramente desse tipo eu só vi nas fantasias infantis, quando Papai Smurf invade nossa realidade através de um portal que só se abre em noites desse tipo.

Falando sério, pareça loucura ou não, a verdade é que muitas pessoas acreditam nas influências energéticas desses eventos e os povos primitivos de diversas culturas faziam muito uso dos céus para atividades terrestres. Hoje parece que estamos muito distantes dessas relações com a natureza e nossa cultura urbana pouco valoriza essas casualidades e sentidos cósmicos. Portanto quem somos nós para dizer de que nada vale uma Lua Azul? Então vamos tentar diluir nossos preconceitos e passear pelo que pode estar acontecendo hoje a noite através de outros olhares.

Para os astrólogos esta será a décima terceira lunação, considerada a que traz visão e poder de transformação, isso porque toda vez que nos transformamos olhamos para trás, para aquilo que já foi feito e só podemos mudar nos transformando e tentando ser diferentes. Ainda é pela visão, mais mental, que se pode enxergar aquilo que não estávamos vendo.

Para outras culturas, mais antigas e variações delas que ainda sobrevivem o contato com aspectos da natureza era orientador para atividades como a agricultura colheitas, festividades e oferendas. Para o povo celta a Lua Azul era o momento de saldar a natureza que estava em volta ou dentro deles. Algumas tribos indígenas usam a lua fins de reprodução e para saudar a fertilidade.

Já os cientistas concordam que a Lua exerce influencia gravitacional sobre a terra, principalmente por conta de seu efeito sobre as águas. E que as luas azuis ocorrem porque o mês lunar não está sincronizado com os nossos meses. São precisos 29,5 dias para que a Lua faça uma órbita em redor da Terra, Afirma tambêm que ela poderá ser vista em todos os lugares do mundo. Muitos observatorios espalhados pelo Brasil vão abrir suas lunetas ao público e muitos rituais místicos vão acontecer em parques e praias do nosso país dê um google e escolha sua melhor forma de apreciar essa lua cheia em dobro do último dia do mês de agosto.